Muito se ouve falar de relacionamentos tóxicos ou abusivos. Mas, na vida real, às vezes não é tão fácil saber se você está em um relacionamento assim. Mesmo pessoas adultas, muitas vezes, só percebem que estão em uma relação abusiva quando já estão sofrendo muito, isoladas da família e amigos, afastadas do estudo, do trabalho e sem amor próprio. Para adolescentes e jovens, pode ser ainda mais difícil.1

Segundo a pesquisa Visíveis e Invisível do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, realizada em 2021, uma em cada quatro mulheres com 16 ou mais disseram ter sofrido algum tipo de violência ao longo do ano anterior.2

A maioria das mulheres relatou ser vítima de violência dentro de casa (48,8%), e apenas 12% relatam ter buscado uma delegacia da mulher após o episódio mais grave.2

A história da Letícia

Essa procura por ajuda muitas vezes é difícil, como nos contou Letícia Pina Ferrer, que hoje tem 37 anos e se considera uma sobrevivente de um relacionamento tóxico que durou 13 anos. Ela conta que as agressões começaram de maneira verbal, indicando uma falta de respeito no relacionamento, até que culminou com uma agressão física que ela sofreu na frente do próprio filho. “Fui acordada sendo agredida. Na época eu dormia em cama compartilhada com o meu filho de três anos. Demorei quase 1 ano para ter coragem de ir à delegacia”, disse.

No entanto, antes do ápice do abuso, o relacionamento tóxico apresenta várias etapas. “A violência doméstica não começa pela agressão física e é aí que mora a dificuldade em reconhecer que se está em um relacionamento tóxico”, nos contou.

Letícia demorou alguns anos para identificar os sinais do relacionamento tóxico e para perceber que o que ocorria não era culpa dela. “Compreendi que uma das maiores dificuldades para sair desse perfil de relacionamento é a falta de informação”.

Para ela, é preciso falar sobre o tema para que mulheres possam se identificar e perceber que estão diante de um envolvimento que não é saudável. "Relacionamento abusivo está tão enraizado na sociedade que romantizamos diversos comportamentos tóxicos, como ciúmes, o excesso de cuidado, que por muitas vezes é uma forma de controle", falou.

O que é um relacionamento tóxico e como identificar?

De acordo com a psicóloga da ONG Bem Querer Mulher, Alyne Bezerra, um relacionamento tóxico conjugal costuma começar com agressões psicológicas que muitas vezes são confundidas com cuidado. "A violência normalmente começa psicologicamente, com um cuidado excessivo desse homem, não a deixando usar um tipo de roupa, pedindo para ver o telefone e dizendo que certas amizades não servem para a companheira", falou.3.1

Segundo ela, os sinais começam a ficar mais evidentes quando começam as outras agressões junto com a psicológica, incluindo a agressão física. "No início ela acha que é apenas ciúme, achando que ele a ama tanto que se preocupa com ela", diz. Alyne Bezerra explica que esse tipo de relação indica uma possessividade em cima dessa mulher, o que faz parte do machismo, onde a mulher acredita que não pode ser feliz sozinha3.1. "Ela dá poder a esse homem também, ao acreditar que ela é dependente dele", disse a psicóloga em relato ao documentário 'Renasci: o outro lado da moeda', que conta a histórias de pessoas que passaram por relacionamentos abusivos.3.1

A própria Letícia recorda que antes da agressão física em si, sofreu muita violência psicológica e gaslighting, palavra quem vem ganhando espaço nos últimos anos.

O que é Gaslighting?

Que mulher nunca ouviu “você está imaginando coisas” ou “você está ficando maluca”, quando tudo o que estava acontecendo era bem real? Existe um nome para este tipo de abuso psicológico: gaslighting. O termo define as agressões a partir de atitudes de abusos psicológicos onde informações são distorcidas, omitidas para favorecer o abusador ou inventadas com a intenção de fazer a vítima duvidar de sua própria memória, percepção e sanidade.4

O termo gaslighting tem origem no filme “Gas Light” (À Meia Luz), de 1944. Na trama, o marido tenta convencer a mulher de que ela é louca, manipulando pequenos elementos de seu ambiente e insistindo que ela está errada ou que se lembra de coisas de maneira incorreta. O nome faz referência às lâmpadas que eram alimentadas a gás, e em certo momento piscavam. Ela nota, mas o marido a faz acreditar que está imaginando, fazendo com que a mulher duvide da própria sanidade.4

Esse é um problema dos homens

O machismo existente em um relacionamento tóxico e abusivo onde a mulher é vítima vem sendo construído ao longo da vida do homem agressor. Segundo o coordenador do Projeto Tempo de Despertar, Sergio Barbosa, a sociedade é machista "porque o fundamento dessa sociedade é o patriarcalismo, que mantém a diferença de homens e mulheres na sociedade".3.2

Ele explica que nenhum homem nasce violento, mas que vai vendo os exemplos em casa, na rua e na sociedade, reforçando atitudes que culminam na falta de respeito no relacionamento amoroso. "Essa violência, às vezes, não começou na relação. Ela começou na própria educação que esse homem teve em seu meio, pois ele não consegue ver as mulheres como seres de direito igual a ele. Ele ainda quer privilégio, onde o reinado da razão é o reinado masculino", diz.3.2

O projeto coordenado por Sergio Barbosa promove a reflexão, conscientização e responsabilização dos autores de violência doméstica, por meio de grupos reflexivos de homens.5

Mulheres se ajudando

A Letícia Ferrer, que nos contou sobre seu relacionamento abusivo de 13 anos, entendeu que ao romper com esse ciclo, poderia ajudar outras mulheres a entenderem como sair de um relacionamento abusivo. Para isso, ela criou a página @DedluzZ, no Instagram, onde traz relatos e reflexões sobre o relacionamento tóxico.6

"O mais importante para que as mulheres compartilhem umas com as outras é saberem que não estão sozinhas nessa e também criarem redes de apoio. Não julgue sua dificuldade de sair desse relacionamento, nossa vida não é uma corrida de quem consegue primeiro. Faça como a lua, tome para si sua ciclicidade, tudo tem o seu tempo, o momento de entender que está em um relacionamento abusivo, o de iniciar um autoconhecimento, se preparar e por fim se libertar! Cure seu feminino para poder ser livre", disse.

Esse também é o intuito do Movimento Bem Querer Mulher, que capacita lideranças comunitárias para empoderar as mulheres vítimas, devolvendo a sua autoestima, confiança e dignidade. Elas acolhem as vítimas, escutam, criam um vínculo de confiança, orientam, esclarecem os seus direitos, acompanham até a rede local de atendimento e conduzem os casos até a conclusão. Muitas vezes, conseguem resultados rápidos, como: medidas protetivas e vagas em Casas Abrigo em 24 horas.6

Assim como esse projeto, outros apoiam e oferecem suporte para mulheres superarem relacionamentos abusivos. Existe um local que promove esse encontro, entre Ongs e pessoas que querem ajuda: o endereço deles é o atados.com.br.7

Renasci: o outro lado da moeda

Os depoimentos da Alyne Bezerra e do Sergio Barbosa fazem parte do documentário "Renasci: o outro lado da moeda". Com 28 minutos de duração, ele mergulha em três histórias apresentando diferentes pontos de vista da violência doméstica.8

A obra é dirigida por Eduardo Barcelos e tem apoio do CIEE, Justiça de Saia, Bem Querer Mulher, Lumakeup, Laces&Hair e Ana Maria Braga. O patrocínio é da Medley.8

Conta, Mana

conta-mana

Para que muitas mulheres não se sintam sozinhas ao atravessar essa jornada que a Medley tem o projeto Conta, mana, que apoia e conscientiza mulheres sobre a importância do bem-estar mental e do autocuidado.9

A Medley ouviu mulheres reais para refletir sobre problemas reais. Por meio de conteúdos e um mapa da saúde mental para mulheres, você encontra informação e ajuda profissional gratuita o mais perto possível da sua casa.9

Referências bibliográficas:

1. Ministério Público do Estado de São Paulo. Namoro Legal. 2019. Disponível em: http://www.mpsp.mp.br/portal/page/portal/Cartilhas/NamoroLegal.pdf. Acesso em: 2022, abril;

2. Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Visível e Invisível - A vitimização das mulheres no Brasil. 3ª Edição. 2021.Disponível em: https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2021/06/infografico-visivel-e-invisivel-3ed-2021-v3-3.pdf. Acesso em: 2022, abril;

3.1 - Eduardo Barcelos . Documentário Renasci: O Outro Lado da Moeda. Fotocontexto Eduardo Barcelos. [8'00"-9'13"]. Disponível em: https://www.videocamp.com/pt/campaigns/quarentena-bemquerermulher-renasci/player?special_id=239987. Acesso em: 2022, abril;

3.2 - Eduardo Barcelos. Documentário Renasci: O Outro Lado da Moeda. Fotocontexto - Eduardo Barcelos. [17'02"-18'00"] . Disponível em: https://www.videocamp.com/pt/campaigns/quarentena-bemquerermulher-renasci/player?special_id=239987. Acesso em: 2022, abril;

4. Associação Nacional das Defensoras e Defensores Públicos (ANADEP). CE: Entenda o gaslighting, um dos tipos de violência psicológica contra a mulher. 2020. Disponível em: https://www.anadep.org.br/wtk/pagina/materia?id=42989. Acesso em: 2022, abril;

5. Câmara Municipal de São Paulo. Programa Tempo de Despertar. Disponível em: https://www.saopaulo.sp.leg.br/mulheres/legislacao/programa-tempo-de-despertar/. Acesso em: 2022, abril;

6. Atados. Casa Bem Querer Mulher - Zona Sul. Disponível em: https://www.atados.com.br/ong/casa-bem-querer-mulher-zona-sul. Acesso em: 2022, abril;

7. Atados. Quem Somos. Disponível em: https://www.atados.com.br/quemsomos. Acesso em: 2022, abril;

8. VideoCamp. Renasci: O Outro Lado da Moeda. 2021. Disponível em: https://www.videocamp.com/pt/movies/renasci-o-outro-lado-da-moeda. Acesso em: 2022, abril.

9. Medley. Conta, Mana. Disponível em: https://www.medley.com.br/contamana. Acesso em: 2022, abril.

MAT-BR-2201976