MITO OU VERDADE: AS MULHERES SÃO MAIS RESISTENTES À DOR QUE OS HOMENS?

Estudos mostram que homens e mulheres lidam com a dor de formas diferentes. Mas será que o sexo biológico realmente define quem é mais resistente?

A cena é clássica: a mulher em trabalho de parto resiste bravamente enquanto seu companheiro desmaia ao seu lado. Tal situação é cômica, mas sugere algo interessante: a ideia de que o sexo feminino seria mais resistente à dor do que o masculino, justamente por enfrentar situações tão dolorosas e incômodas como dar à luz.1

Mas será que as mulheres realmente são mais resistentes a dor? Há quem diga que homens são mais tolerantes pois são mais "duros" devido à consistência física. Outros acreditam que o sexo feminino precisa lidar com tantas dores naturais ao longo da vida que acaba lidando melhor com elas.1

Apesar dos estereótipos, pesquisas têm produzido resultados variados.1 As evidências revelam que há diferenças no que diz respeito à percepção da dor entre os gêneros.2 Mas isso não significa que o sexo feminino é sempre o mais tolerante.

DOR E SEXO BIOLÓGICO

Estudos1,2,3,4 que analisam a tolerância entre homens e mulheres indicam que estas são mais sensíveis à dor. Além disso, o sexo feminino está mais sujeito a sofrer com condições que provocam dores crônicas. Portanto, acabam reportando o mal estar mais frequentemente do que o masculino -- o que não significa que são necessariamente menos tolerantes.

Estudo2 feito no Reino Unido em 2008, por exemplo, destacou alguns pontos sobre a questão:

  • Evidências revelam que homens e mulheres percebem a dor de formas diferentes;
  • Em média, as mulheres relatam mais dores quando comparadas aos homens e enfrentam condições dolorosas e crônicas com maior frequência, como a fibromialgia (da qual já falamos antes);
  • No que diz respeito a dor, as diferenças entre os sexos variam de acordo com a idade. As diferenças ocorrem, sobretudo, nos anos reprodutivos;
  • O sexo de um indivíduo ainda não é rotineiramente investigado em muitos estudos sobre a dor;
  • Há uma série de mecanismos que podem estar envolvidos na explicação dessas diferenças, como hormônios, comportamentos e busca por melhor saúde.

Você já se sentiu mais sensível antes de ficar menstruada, durante a TPM? As alterações hormonais sentidas pelas mulheres ao longo do ciclo menstrual são um dos principais motivos para a prevalência da sensibilidade à dor entre o sexo feminino.2

Além dos hormônios, condições emocionais e até relações interpessoais influenciam na forma como cada sexo lida com a dor. A relação entre ansiedade e dor é mais prevalente entre os homens, por exemplo, enquanto a mesma relação acontece entre mulheres quando a causa é a depressão. Além disso, a forma como estas lidam com a dor é diferente. Em uma pesquisa feita em 20094, concluiu-se que as mulheres usam mais estratégias de enfrentamento.

Em outras palavras, elas falam mais sobre a dor com outras pessoas e buscam apoio emocional e social para lidar com isso. Já os homens verbalizam menos a condição, o que pode ser bastante negativo em termos de tratamento.

RESILIÊNCIA PODE SER O CAMINHO

Em 2014, pesquisadores da Universidade de Málaga, na Espanha, reportaram achados interessantes: o sexo da pessoa não importa, mas a sua resiliência sim. Portanto, as diferenças entre homens e mulheres no que diz respeito a tolerância a dor seriam mínimas. O que impactaria, na verdade, seria a capacidade de superar circunstâncias adversas.5

No estudo, 400 pacientes com dor espinhal crônica foram tratados em centros de cuidados primários. Os mais resistentes foram os que aceitaram a dor e pararam de canalizar suas forças em fazê-la desaparecer. Eles concentraram as energias em melhorar sua qualidade de vida, apesar do desconforto. Então, aqueles que aceitaram a condição eram mais ativos e apresentavam melhor humor.

Além disso, os pacientes que tinham medo de sentir dor foram os menos resilientes e, por consequência, os mais depressivos e ansiosos. No entanto, há um ponto importante: essa tendência só foi observada entre os homens. O medo da dor, portanto, foi a única característica específica a um dos sexos.

DOR E SUBJETIVIDADE

Apesar dos resultados, conduzir estudos sobre o tema não é simples pois a dor, por si só, é subjetiva. Para entender o que o indivíduo está sentindo, é preciso confiar unicamente no seu relato.1 Portanto, é difícil determinar o quanto a dor é sensorial e o quanto é influenciada por fatores psicológicos.

O sistema límbico do cérebro, relacionado à emoção, é ativo e responde à dor física tanto para homens, quanto para mulheres. Ao analisar uma ressonância magnética, pode ser difícil distinguir a dor puramente física da psicológica, como aquela sentida quando terminamos um namoro, por exemplo.1

Homens e mulheres sentem dor e têm suas próprias formas de lidar com ela -- seja reportando com frequência ou guardando para si. O importante, no final das contas, é respeitar as diferenças entre os indivíduos -- não necessariamente entre os sexos.

REFERÊNCIAS

1. Pennsylvania State University [homepage na internet]. Probing Question: Do women have a higher pain threshold than men? [acesso em 15 Out 2018]. Disponível em: https://news.psu.edu/story/141291/2008/11/10/research/probing-question-do-women-have-higher-pain-threshold-men

2. Keogh E. Sex Differences in Pain. Reviews in Pain. Dez 2018. 2(2): 4–7. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4589941/

3. Bartley EJ, Fillingim RB. Sex differences in pain: a brief review of clinical and experimental findings. British Journal of Anaesthesia. Jul 2013. 111(1): 52–58. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3690315/

4. Fillingim RB, King CD, Ribeiro-Dasilva MC, Rahim-Williams B, Riley JL. Sex, Gender, and Pain: A Review of Recent Clinical and Experimental Findings. Mai 2009. 10(5): 447–485. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2677686/

5. Ramírez-Maestre C, Esteve R. The Role of Sex/Gender in the Experience of Pain: Resilience, Fear, and Acceptance as Central Variables in the Adjustment of Men and Women With Chronic Pain. The Journal of Pain, 2014; 15 (6): 608. Disponível em: https://www.sciencedaily.com/releases/2014/09/140910083339.htm

SABRAGE.MDY.18.10.0321

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