O que toda mulher saudável precisa saber sobre comer por dois.

Mulher grávida: ao contrário do que costumam dizer, você não precisa comer por dois. Ou pelo menos, não por dois adultos.

Na verdade, durante a gestação, o corpo da mulher usa mais calorias e conserva mais energia, ou seja, trabalha de forma mais eficiente. Sim, é natural e necessário aumentar o número de calorias ingeridas diariamente (300 calorias a mais por dia, em média)¹,mas idealmente, mulheres grávidas com peso normal (IMC de 18,5 a 24,9) devem ganhar entre 10 e 15 quilos ao longo da gravidez1. O ganho de peso de acordo com as recomendações dos especialistas, associado a uma dieta adequada para essa fase, ajuda a diminuir os riscos da gestação para a mãe e leva a melhores condições para o nascimento do bebê¹'².

Uma chance para novos hábitos

Entre desejos loucos e aversões alimentares inesperadas, pode ser tentador simplesmente colocar uma vitamina pré-natal no prato do café-da-manhã e sentir que está fazendo a sua parte. As suplementações podem ser necessárias, já que algumas alterações fisiológicas acontecem durante a gravidez². Se a sua alimentação não era das mais saudáveis antes de engravidar, dê uma chance para mudar alguns hábitos que vão fortalecer a você e ao seu bebê. Calorias do bem são importantes e necessárias nesta fase.

Bom dia para quem?

Um dos desafios mais difíceis no começo de uma gravidez são os enjoos matinais. Já não bastasse o corpo (e a mente) se adequando à nova realidade, as náuseas vem com tudo para nos lembrar dos altos níveis de hormônios, incluindo estrogênio⁴ que passa pelo corpo da gestante. Segundo estudos, até 80% das futuras mães passam por enjoos e vômitos, concentrados, em sua maioria, no primeiro trimestre5.

Mas porque? Um estudo feito pela Universidade de Cornell publicado em The Quarterly Review of Biology, levanta uma questão importante: esse mal-estar é uma forma do organismo proteger mãe e feto de doenças transmitidas por alimentos, além de preservar o bebê do contato com produtos químicos que podem deformar os órgãos fetais no momento mais crítico do desenvolvimento, os primeiros meses6. O corpo quer preservar o bem-estar da mãe em um momento em que seu sistema imunológico está naturalmente suprimido (para evitar a rejeição da criança que se desenvolve em seu útero) e reduz as defesas contra contaminações alimentares.

Nenê com cara de...

Os desejos, as inexplicáveis vontades de comer algo específico, são uma das maiores lendas da gravidez. Não, o seu filho não nascerá com carinha de nenhum alimento que você deixou de comer às 3 da madrugada, mas fato é que estas vontades podem bater de forma incontrolável. Geralmente elas aparecem no primeiro trimestre (chegando ao segundo) e costumam desaparecer antes do nascimento7. Embora a náusea e a aversão a alguns alimentos tendam a acontecer ao mesmo tempo, os desejos são bastante imprevisíveis.

Mas não necessariamente o corpo deseja o que precisa fortalecer: os alimentos que as grávidas mais desejam são doces (chocolate e sorvete no topo da lista), além de frutas, sucos de frutas e derivados de leite7. Ou seja; desejo não é desculpa para descontrole.

Existem muitas hipóteses que justificam o aparecimento dos desejos e, em sua maioria, estudos relacionam o fenômeno com mudanças hormonais. Uma substância chamada Neuro peptídeoY (NPY) é um dos mais potentes estimulantes do apetite que conhecemos. Essa substância é fabricada no hipotálamo e entregue em várias regiões do cérebro para aumentar o apetite. Recentemente, pesquisas sugeriram que a síntese do NPY é aumentada durante a gravidez8.

Ômega 3 e outros nutrientes essenciais para grávidas.

Os ácidos graxos (em especial o ômega 3 DHA) são aliados da saúde durante a gestação e posteriormente, durante a amamentação. O DHA em especial, é essencial na formação do sistema nervoso central do bebê. Alguns estudos mostraram que o consumo materno de DHA pode resultar num discreto prolongamento da gestação e, até certo ponto, maior peso ao nascimento e risco reduzido de prematuridade9.O composto está presente em peixes, mariscos e algas, daí a recomendação do consumo de peixes para grávidas 9 Porém, atenção: é muito importante checar a procedência do produto para evitar contaminação por metais pesados.Especialistas recomendam de uma a duas porções por semana de peixes ricos em DHA, como salmão, atum, anchova ou cavala, para o consumo de mulheres em idade fértil9.

Cuidados ao comer fora.

Não há problema algum em comer em bares e restaurantes durante a gravidez, mas é preciso alguns cuidados: sushi, carne crua, vegetais e hortaliças cruas não são a melhor opção quando não sabemos como aqueles ingredientes foram higienizados.

E os restaurantes por quilo? Sabemos que para muitas mulheres eles fazem parte de seu cotidiano, mas eles não deveriam ser a primeira escolha na hora de comer fora. Porque como a comida já preparada fica exposta por um período de tempo, nada garante que ela fique na temperatura adequada para evitar a proliferação de bactérias que podem causar intoxicações alimentares. Se o quilo realmente for a única opção, priorize legumes e verduras cozidos, carnes brancas ou vermelhas bem passadas, e frutas como sobremesa.

Bom apetite!

REFERÊNCIAS

1. NICHD Research Weighs in on Weight Gain during Pregnancy. Disponível em: https://www.nichd.nih.gov/news/resources/spotlight/082813-pregnancy-weight

2. LADIPO, O. Nutrition in pregnancy: mineral and vitamin supplements. The American Journal of Clinical Nutrition, v. 72, n. 1, p. 280S-290S, 2000. Disponível em: https://academic.oup.com/ajcn/article/72/1/280S/4729670

3. UCSF Medical Center: Eating Right Before and During Pregnancy. Disponível em: https://www.ucsfhealth.org/education/eating_right_before_and_during_pregnancy/

4. Betterhealth.vic.gov.au. (2018). Pregnancy -morning sickness. [online] Available at: https://www.betterhealth.vic.gov.au/health/healthyliving/pregnancy-morning-sickness [Accessed 13 Aug. 2018].

5. LEE, N.; SAHA, S. Nausea and Vomiting of Pregnancy. Gastroenterology Clinics of North America, v. 40, n. 2, p. 309-334, 2011. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1635459/

6. CORNELL. . [s.l: s.n.]. Disponível em: http://news.cornell.edu/stories/2000/05/morning-sickness-protects-mothers-and-their-unborn .

7. Pickles and ice cream! Food cravings in pregnancy: hypotheses, preliminary evidence, and directions for future research. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4172095/

8. OBERTO, A. et al. Evidence of Altered Neuropeptide Y Content and Neuropeptide Y1Receptor Gene Expression in the Hypothalamus of Pregnant Transgenic Mice. Endocrinology, v. 144, n. 11, p. 4826-4830, 2003. Disponível em: https://academic.oup.com/endo/article/144/11/4826/288061310

9. Koletzko B e. Dietary fat intakes for pregnant and lactating women. -PubMed -NCBI [Internet]. Ncbi.nlm.nih.gov. 2018 [cited 13 August 2018]. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/17688705