NÃO NEGLIGENCIE A SAÚDE DO SEU CORAÇÃO: CARDIOPATIAS E INFARTO EM MULHERES

O infarto em mulheres pode apresentar sintomas diferentes dos homens. Fique atenta! E entenda as diferenças entre os organismos e os riscos para o sexo feminino.

Desconforto ou dor no peito são sensações desagradáveis e que podem indicar algo grave: um possível ataque do coração.¹ Ainda que este sintoma de infarto seja o mais comum entre homens e mulheres, o sexo feminino também pode apresentar outros sinais.² 

Náusea, vômito, tontura e fraqueza -- sintomas que podem indicar condições corriqueiras, como uma gripe¹ -- podem indicar um possível ataque cardíaco. Isso não significa, é claro, que você estará infartando sempre que sentir esses sintomas. O infarto entre mulheres também provoca outro sinais, como suor excessivo, fadiga incomum, falta de ar, e desconforto abdominal, no pescoço, mandíbula, ombros ou na parte superior das costas (além da famosa dor no peito).³

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS)4, as doenças cardiovasculares são 31% das causas de morte todos os anos. E se engana quem pensa que as principais vítimas são os homens: doenças do coração também são a principal causa de fatalidades entre mulheres5. 

COMO O CORAÇÃO DA MULHER DIFERE DO CORAÇÃO DO HOMEM?

O coração da mulher é ligeiramente menor do que o do homem (cerca de dois terços do tamanho) e sua fisiologia é um pouco diferente. Pesquisas mostram que as suas frequências cardíacas médias, por exemplo, são mais aceleradas.6

As mulheres também têm artérias coronárias mais finas e maior tendência a sofrer com bloqueios não apenas nas artérias principais, mas também nas menores, que fornecem sangue ao coração (condição chamada “doença cardíaca de pequenos vasos” ou “doença microvascular coronária”). Por esse motivo, quando têm um ataque cardíaco, descrevem a dor no peito como uma pressão ou aperto, e não como uma dor lancinante. Além disso, tal sintoma é menos frequente entre o sexo feminino do que entre os homens.5

Outras particularidades do organismo da mulher estão associadas às cardiopatias5. O hormônio estrogênio ajuda a proteger seu corpo das doenças cardíacas antes da menopausa, aumentando o colesterol HDL (“bom”) e reduzindo o LDL (“ruim”). Mas após a última menstruação, o sexo feminino
têm concentrações mais altas de colesterol do que os homens. Os triglicerídeos elevados também são importantes contribuintes para o risco cardiovascular, o que aumenta o risco de morte por doença cardíaca após os 65 anos5.

A diabetes é outro fator que aumenta o risco de doenças cardíacas nas mulheres -- mais do que nos homens. Isso ocorre porque, em geral, a condição está associada à obesidade, hipertensão e colesterol alto quando se trata do sexo feminino5. 

Porém, não significa que você, mulher, só deva se preocupar com cardiopatias na velhice. De acordo com a Escola de Medicina de Harvard, a síndrome metabólica é o fator de risco mais importante para ataques cardíacos em idades precoces. Tal síndrome é um conjunto de doenças como pressão arterial elevada, excesso de gordura na região da cintura, colesterol "bom" baixoe triglicerídeos elevados5. 

Mas se você tem mais de 40 anos, a atenção deve ser redobrada, assim como ocorre nos casos de quem possui vários fatores de risco.7

Existem outros fatores de risco?

Sim. Não são só as condições genéticas e de saúde que apresentam riscos para a saúde cardiovascular. Os seus hábitos e estilo de vida também são um fator importante. Fumar é o primeiro alerta vermelho. Mulheres que fumam são mais propensas a ter um ataque cardíaco do que homens fumantes.5 assim como as que fumam passivamente.5 Elas também são menos propensas a largar o cigarro. 

Sedentarismo, certos tratamentos para câncer e complicações na gravidez (como pressão alta, pré-eclâmpsia e diabetes gestacional) são outros fatores de risco. Por fim, é fundamental cuidar da saúde mental. As mulheres que sofrem de depressão ou são submetidas a muito estresse têm o coração mais afetado por tais condições do que os homens.³ 

Como devo cuidar do meu coração?

Vamos falar de coisa boa: as doenças do coração, ainda que sejam as principais causas de morte entre as mulheres, são também as mais preveníveis.5 Além do acompanhamento médico regular, para detectar doenças cedo e prever condições genéticas, certos hábitos podem ser adotados:

  • Pare de fumar agora;
  • Faça exercícios regulares, pelo menos durante 30 minutos por dia;
  • Mantenha uma dieta saudável e variada, que inclua grãos integrais, frutas, vegetais, carnes magras e laticínios com pouca ou nenhuma gordura. Evite gorduras saturadas ou trans, açúcares adicionados e quantidades elevadas de sal;
  • Reduza o estresse e trate ansiedades e depressões.

"Fácil falar", você pode dizer, mas conhecer os principais sintomas do infarto é outra forma de prevenir danos mais graves. Cerca de um mês antes do ataque cardíaco ocorrer, o corpo pode dar alguns sinais, como fadiga incomum, distúrbios do sono, falta de ar, indigestão, ansiedade, coração acelerado e sensação de peso ou fraqueza nos braços. Portanto, conheça seu organismo e, se notar mudanças, consulte um médico.5

Alguns desses sintomas também aparecem durante o ataque do coração em si, além de suor excessivo, dor e pressão na região do peito e desconforto abdominal, no pescoço, mandíbula, ombros ou na parte superior das costas. Eles exigem que você procure atendimento médico imediato5. 

Em geral, o tratamento da doença cardíaca em homens e mulheres é semelhante, dependendo da natureza e consequências da doença.³ 

Infelizmente, mulheres que não têm a dor torácica típica têm menor probabilidade de receber essas opções de tratamento, que são potenciais salvadoras de vidas.3

Quem participa?

Devido ao menor reconhecimento das doenças cardiovasculares e das diferenças nas manifestações clínicas nas mulheres, o sexo feminino está menos representado nos estudos clínicos e as estratégias de tratamento sugeridas são menos agressivas.8

Em 2004, por exemplo, a Food and Drug Administration (FDA) aprovou o coração artificial, criado para oferecer apoio mecânico ao organismo até que um doador de órgãos seja encontrado.9 Ele foi projetado para uma área de 1.7m³. Portanto, é adequado para a cavidade abdominal da maioria dos homens. Mas para algumas mulheres, pode ser que o órgão seja grande demais para a sua caixa torácica. Foi o que ocorreu em 2015, nos Estados Unidos, com uma paciente de 44 anos. Ela deu entrada no Ronald Reagan UCLA Medical Center sofrendo de uma condição inflamatória nos músculos do coração que poderia provocar falência cardíaca9.

Os médicos responsáveis tentaram substituir o coração danificado da paciente pelo artificial, mas o dispositivo não coube em seu corpo. Felizmente, a paciente teve um pouco de sorte: a equipe conseguiu que a FDA aprovasse o uso de um outro dispositivo menor, que ainda estava sob análise, feito para homens menores, mulheres e também adolescentes. Esta situação pioneira abriu caminho para que o coração artificial de tamanho adequado para mulheres e homens de baixa estatura fosse finalmente aprovado.9

Outro estudo10, publicado em 2016, destaca que se dá pouca atenção às diferenças anatômicas entre os gêneros quando se trata de doenças cardíacas. As mulheres são submetidas a transplantes de coração com menor frequência -- menos de um terço dos órgãos são alocados para mulheres. Muitas vezes, isso ocorre devido à menor incidência de doenças que indicam os transplantes, entre outros fatores. Portanto, pesquisadores têm menos dados em mãos quando se trata do sexo feminino. Além disso, como recebem tratamentos menos agressivos do que o sexo masculino,estão mais sujeitas a morrer na fila enquanto esperam por um doador. 

REFERÊNCIAS

 

1. Ministério da Saúde. Menopausa [acesso em 13 set 2018]. Disponível em: http://www.brasil.gov.br/editoria/saude/2011/09/menopausa

2. Sanghivi MM, Aung N, Cooper JA, Paiva JM, Lee AM, Zemrak F, et al. The impact of menopausal hormone therapy (MHT) on cardiac structure and function: Insights from the UK Biobank imaging enhancement study. Plus-One. 2018 Mar 8. Disponível em: https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0194015

3. Bots SH, Peters SAE, Woodward M. Sex differences in coronary heart disease and stroke mortality: a global assessment of the effect of ageing between 1980 and 2010. BMJ Journals. 2017. 2. Disponível em: https://gh.bmj.com/content/2/2/e000298

4. Mayo Clinic. Hormone replacement therapy and your heart [acesso em 13 set 2018]. Disponível em: https://www.mayoclinic.org/diseases-conditions/menopause/in-depth/hormonereplacement-therapy/art-20047550

5. Manson JE, Aragaki AK, Roussouw JE, Anderson GA, Prentice RL, LaCroix AZ. Menopausal Hormone Therapy and Long-term All-Cause and Cause-Specific Mortality - The Women’s Health Initiative Randomized Trials. JAMA. 2017. 318(10): 927-938. Disponível em: https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2653735

6. Instituto do Coração. Terapia de Reposição Hormonal - Postura Atual [acesso em 13 set 2018]. Disponível em: http://www.incor.usp.br/conteudomedico/geral/terapia%20de%20reposicao%20hormonal.html

7. Ministério da Saúde. Climatério [acesso em 13 set 2018]. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/dicas/202_climaterio.html