COMO O USO DAS REDES SOCIAIS E TECNOLOGIA INFLUENCIAM NA DEPRESSÃO

Quem não gosta de dedicar um momento do dia para ver quais são as novidades dos amigos nas redes sociais? De seguir aquele famoso com uma vida linda, ou buscar inspiração no estilo de alguém com muitos seguidores? A princípio, nada disso teria porque ser um problema, afinal é só uma distração do dia-a-dia, certo?

Esse hábito passa a ser negativo quando passamos a perder a hora navegando nas redes sociais, especialmente se ficamos nos comparando a outras pessoas 1. Yuri Busin 3, psicólogo e doutor em neurociência do comportamento, explica que exagerar nas redes sociais pode afetar negativamente o humor e agravar a depressão.

“A depressão não é uma coisa que acontece por uma única causa, mas há vários pontos que giram em torno da vida da pessoa que podem levar a esse transtorno. As redes sociais, nesse caso, podem reforçar para que ela se sinta pior”.

Entenda: não há problema em navegar nas redes sociais, mas se você nota que fica triste ou emocionalmente abalado por um período longo ao perceber que não tem o celular de última geração que o Youtuber mostrou naquele vídeo, ou não tem condições financeiras para fazer a viagem que a blogueira postou durante semanas no Instagram, algo pode estar errado.

“No Instagram, por exemplo, as pessoas postam uma vida perfeita. Quem está com depressão acaba vendo isso, que a pessoa sempre sai de casa, faz esporte, tem uma vida desejada, mas não vê que isso é uma vida que a pessoa posta para impressionar as outras, e não quer dizer que necessariamente essa é a realidade”, explica o psicólogo.

Muitas vezes as redes sociais acabam fazendo com que a pessoa se sinta inferior, e esse sentimento pode piorar a depressão dela. Yuri 3 explica que essa comparação faz com que a pessoa passe a se sentir cada dia mais sozinha. “As redes sociais dão a falsa sensação de estar acolhido”

Por isso é importante procurar se conectar com pessoas reais, entender que a vida perfeita postada nas redes não necessariamente é real e principalmente, não se comparar com ninguém.

Busca pelos likes nas redes sociais

Outro problema que pode refletir negativamente na depressão é a constante busca por aprovação. É aquele clássico momento felizinho depois de ganhar um like. Quando alguém está em um dia mais melancólico, pode passar a postar alguma coisa simplesmente para se sentir melhor ao ganhar a aprovação de alguém.

“A pessoa passa a tentar compensar a tristeza pela sensação momentânea de prazer ao receber uma curtida na rede social. É fato, ela se sente bem, pois o mundo está reforçando que aquilo que ela postou é algo legal”, relata o psicólogo. “O problema está nessa compensação emocional, pois muitos podem acabar se tornando dependentes disso, e passar inclusive a manipular as imagens para receber mais likes”.

A exposição nas redes também pode aumentar o risco de alguém sofrer cyberbullying, que é um tipo de violência psicológica praticada nos meios digitais[1]. Durante a depressão, por exemplo, ficamos mais suscetíveis a comentários maldosos nas redes sociais, pois eles afetam diretamente nossa autoestima.

Quando você notar um sentimento de inferioridade ao navegar pelas redes, e ele for recorrente, não hesite: procure ajuda de um terapeuta, pois isso pode evitar uma recaída ou agravamento da depressão.

Exposição à luz azul também atrapalha 2

Há vários tipos de luz: a luz visível, que é emitida pelo sol e vai do vermelho ao roxo, a infravermelha e a ultravioleta, que não são captadas pelo olho humano. As telas de aparelhos eletrônicos, como computador, celular, e TV, emitem luz azulada e estudos já mostram que ela pode impactar negativamente quem tem depressão.

O problema não está na luz em si, mas no horário em que ela é usada. O neurologista Fábio Porto, do Hospital das Clínicas de São Paulo explica: “Existe um sistema que regula o ciclo de sono e vigília, para que o cérebro saiba quando deve acordar e também a hora de dormir. A claridade é um grande fator externo que modula isso, pois o corpo é basicamente programado para ficar acordado de dia e dormir à noite, quando não há luz”, diz o médico.

“Há uma conexão da retina, que fica no fundo do olho, com a hipófise, o hipotálamo e a glândula pineal. Essa glândula é quem produz a melatonina, que é o hormônio que induz o sono”.

Para secretar esse hormônio que nos dará uma boa noite de sono, é preciso gradativamente passar de um ambiente iluminado para o escuro. “O principal impulso para reduzir a secreção de melatonina é a luz, e o espectro de luz azul é o tipo que mais inibe a melatonina”, alerta o médico. Logo, quem passa horas ao celular até tarde da noite, tem uma qualidade pior de sono, o que pode agravar a depressão já instalada.

O ideal, portanto, é parar de usar o celular ou ficar diante de telas ao menos duas horas antes de dormir. Com isso, tanto a cabeça pode desanuviar de sentimentos ruins causados pelas redes sociais quanto o corpo vai conseguir se preparar para um sono reparador e de grande importância no tratamento da depressão. Experimente!

Referências:

  1. Elizabeth M Seabrook, Margaret L Kern, Nikki S Rickard. Social Networking Sites, Depression, and Anxiety: A Systematic Review. JMIR Mental Health. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5143470/
  2. Milena Pavlova. Circadian Rhythm Sleep-Wake Disorders. Continuum. American Academy of Neurology. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/28777176
  3. Dr. Yuri Busin, Mestre e Doutor em Neurociência Cognitiva pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Disponivel em: https://yuribusin.com.br/.
https://yuribusin.com.br/

SABRAGE.MDY.18.11.0365

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