As redes sociais
além do like

Setembro amarelo: como o uso excessivo das redes sociais podem prejudicar sua saúde mental

As redes sociais chegaram para ficar e já existe uma geração que não sabe o que é viver sem as curtidas e compartilhamentos, pois nasceu em um mundo já dominado pelo Facebook, Twitter, Instagram e outras mídias.

Apesar de ser fonte de renda para milhares de pessoas no planeta e possibilitar maior interação com quem não se convive diariamente ou até com ídolos, as redes sociais podem ser prejudiciais à saúde mental se não forem utilizadas de maneira correta. É o que diz uma pesquisa realizada pela instituição de saúde pública do Reino Unido, Royal Society for Public Health, em parceria com o Movimento de Saúde Jovem1.

O estudo revela que as taxas de ansiedade e depressão entre jovens de 14 a 24 anos aumentaram 70% nos últimos 25 anos. Ao todo, 1.479 participantes das pesquisas falaram sobre o nível de envolvimento com aplicativos como Youtube, Twitter, Instagram e Snapchat e como eles influenciavam em seus sentimentos1.

 

O resultado indicou que o compartilhamento de fotos pelo Instagram impacta negativamente no sono, na autoimagem e aumenta o medo de jovens de ficar fora dos acontecimentos. Cerca de 70% dos jovens revelaram que o aplicativo fez com que eles se sentissem pior em relação à própria autoimagem e, quando a fatia analisada são as meninas, esse número sobe para 90%1.

Essa realidade já gerou uma reação nos desenvolvedores do Instagram, que em 2019 decidiram ocultar para terceiros o número de likes em publicações. "Não queremos que as pessoas sintam que estão em uma competição dentro do Instagram e nossa expectativa é entender se uma mudança desse tipo poderia ajudar as pessoas a focar menos nas curtidas e mais em contar suas histórias", informou a plataforma2.

O impacto da dependência digital no cotidiano   

Essa competição por “likes” foi vivida intensamente pelo estudante universitário Bruno Peres, 20 anos, que chegou a ter quatro contas simultaneamente no Instagram e 25 mil seguidores em apenas uma delas até perceber que a rede social estava mexendo com o seu cotidiano, forçando-o a ser uma pessoa que ele não é.

“Quando eu alcancei os 25 mil seguidores, a rede social acabou se tornando um problema, pois eu sentia uma necessidade intensa de agradar essas pessoas e fazer o número de seguidores do Instagram aumentar cada vez mais. Virou um jogo, pois quanto mais seguidores alguém tinha, mais ele era poderoso e poderia ser importante para me ajudar a alavancar o número de seguidores na minha conta também”, disse.

Segundo o universitário, as publicações começaram a se tornar uma obrigação para mostrar o quanto a sua vida era “perfeita”.

“Era uma fuga da realidade, onde eu poderia falar de coisas da minha vida que não eram tão boas e onde eu poderia criar essa perfeição”, lembra o jovem, que chegou até a comprar seguidores para manter o status na rede social.

Para Jackeline Giusti, psiquiatra da infância e da adolescência do Instituto de Psiquiatria da USP, o uso inadequado das redes sociais pode impactar negativamente na vida de adultos, mas sobre tudo na de crianças e jovens. "Estudos mostram que as redes sociais desenvolvem maior irritabilidade entre crianças que utilizam mais de duas horas diárias. Isso pode acabar desenvolvendo sintomas depressivos, diminuição do rendimento escolar e diminuição de atividades lúdicas e esportivas, que auxiliam na saúde mental", avaliou.

Por outro lado, pondera a especialista, é praticamente impossível privar os jovens do acesso às redes sociais, já que é por meio delas que eles conversam com os amigos e muitas vezes desenvolvem atividades escolares. A dica, segunda Jackeline, é utilizar a tecnologia de forma mais balanceada e dividir com atividades esportivas e em grupo, sem o envolvimento de telefones celulares.

Para Bruno, esse balanceamento foi aplicado de forma intuitiva, após um episódio traumático que revelou como o Instagram estava prejudicando o seu convívio social. Tudo começou após o término de um relacionamento, onde ele percebeu que apesar da profunda tristeza que sentia, não poderia deixar transparecer em suas publicações diante dos fãs.

“Eu namorava uma pessoa que nem tinha redes sociais, o oposto do que eu vivia. Quando terminamos, percebi que passava muito tempo tentando mostrar para estranhos que eu estava bem e não me permitia sentir outras coisas, como tristeza e angústia”, contou.

Foi nesse momento difícil que Bruno decidiu tomar uma atitude drástica e excluiu a conta. “Foi uma reflexão que fiz e resolvi mudar, percebendo que estava viciado e como isso havia afetado a minha saúde mental. Hoje, a minha relação com as redes sociais é muito diferente e não permito que pessoas que eu não conheço tenha acesso às minhas publicações e sempre que noto que estou passando tempo demais no Instagram, desinstalo o aplicativo e faço uma espécie de desintoxicação”, contou.

Esse autocontrole, no entanto, pode ser mais difícil de ser conquistado para crianças e adolescentes. Neste caso, é importante a supervisão dos pais para evitar situações perigosas, como abusos e o cyberbullying. "É importante os pais checarem o que o filho está conversando nas redes sociais e o filho deve saber que isso será feito. Muitos perguntam sobre a questão da privacidade, mas eu defendo que ela existe quando se tem um diário ou algo que só será acessado pelo jovem. A partir do momento que se publica em uma rede social, essa informação se torna pública e, se todo mundo pode ver, os pais também podem", argumenta Jackeline a psiquiatra.

Setembro Amarelo: uma iniciativa para prevenção da depressão   

A depressão é o principal assunto debatido pela saúde pública em setembro. Criada em 2014, a campanha Setembro Amarelo foi uma iniciativa da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM) para jogar luz sobre esse e outros transtornos mentais3.

Em 2019, o Ministério da Saúde colocou como prioridade o público jovem, que não apenas no Brasil, como no resto do mundo, tem sido a população que mais precisa de atenção. Segundo o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, os jovens brasileiros estão entre os que passam mais tempo conectados à internet. "O mundo virtual é maravilhoso, mas não condiz com a realidade. Ali, todo mundo está feliz, bem. Estamos tendo dificuldades de conviver com isto", falou4.

O governo também tem se preocupado com o cyberbullying, que fogem do controle e muitas vezes sai do grupo dos amigos e ganha uma escala nacional por causa das redes sociais.

A ideia do governo é desmistificar a depressão e levar a discussão para a sala de aula. "A saúde vai ter que ir para as escolas(...). E acho que são os próprios adolescentes, dialogando entre si, que [com orientação] vão achar as necessárias válvulas de escape. Porque eles não vão achar com quem falar dentro de casa. Não acham na família. O meio está hostil, os amigos estão vivendo no mundo virtual e, no mundo real, esses jovens se deparam com [as exigências e frustrações do] dia a dia", concluiu o ministro4.

Essa ação é defendida também pela psiquiatra Jackeline Siusti. "É preciso promover ações para conscientização de professores, ajudando os educadores a conversarem sobre o assunto, pois muitas vezes são eles que identificam uma criança deprimida e fazem chegar aos pais, que levam para o tratamento".

Ela também acredita na importância da abordagem do assunto em meios de comunicação de massa, desde que a depressão seja tratada de forma respeitosa, como qualquer outra doença. "É preciso mostrar que há tratamento, pois muitas vezes o adolescente chega ao consultório com esse quadro e com uma conversa, demonstrando que há uma saída, ele já demonstra evolução”.

Os mitos da depressão   

Muitas vezes tratada como melancolia ou “frescura”, a depressão aos poucos vai sendo desmistificada também nas camadas mais populares da sociedade e compreendida como um transtorno mental sério e relativamente comum.



Um estudo realizado pela Univesidade Johns Hopkins em 2016 mostrou que a depressão clínica entre adolescentes cresceu 37% entre os anos de 2005 e 2014. Segundo as análises coletadas pelos pesquisadores, os dados permaneceram praticamente estáveis até 2011, mas tiveram um aumento significativo até 2014. O salto foi maior entre as meninas, passando de 13,1% para 17,3%5.

Mais uma vez, a suspeita é de que o uso de redes sociais e o cyberbullying estejam por trás deste aumento repentino5.

Esses dados comprovam a urgência para que o assunto seja abordado não apenas entre a comunidade científica e é justamente com este propósito que o Setembro Amarelo surgiu. Em 2019, por exemplo, o rapper Emicida lançou um single com a temática depressão e o clipe já teve 3,8 milhões de visualizações no Youtube até a publicação deste texto.

A música AmarElo, que conta com a participação de Majur e Pabllo Vittar, segundo Emicida nasceu após ele ouvir outra música: “Ainda há tempo”, do também rapper Criolo. “'Cê quer saber? Então, vou te falar. Por que as pessoas sadias adoecem, bem alimentadas, ou não, por que perecem? Tudo está guardado na mente”, dizem os versos que serviram de inspiração6. Em AmarElo, Emicida definiu como "uma oportunidade de darmos atenção a frase que continua fazendo tanto sentido ainda hoje - atenção - como pede o amarelo dos semáforos, pois ainda há tempo"6.

Dessa forma, a depressão vem ganhando espaço nas conversas, na arte, nos programas de televisão. Isso é fundamental, pois de acordo com a assessora técnica de Saúde Mental da cidade de São Paulo, Liamar de Abreu Ferreira, muita gente tem a doença e não sabe. "Quanto mais se divulga, mais se atinge a população. Associam a depressão à desmotivação, anemia ou cansaço e a pessoa acaba achando que não está depressiva. Também existe a questão do estigma familiar, que fala que é falta de coragem e acabam levando em outros especialistas que não são da área da saúde mental", disse7.



Esgotamento mental (ou Síndrome de Burnout)   

Também em 2019, a Organização Mundial de Saúde (OMS) sinalizou com preocupação para outra doença que nem sequer havia sido catalogada até então e é sintoma da realidade que vivemos neste século.

A Síndrome de Burnout ou Síndrome do Esgotamento profissional é um distúrbio com sintomas de exaustão extrema, estresse e esgotamento físico proveniente de uma situação de trabalho desgastante por causa de uma competitividade elevada e um sentimento ampliado de responsabilidade8.

Em maio de 2019, a OMS categorizou a Síndrome de Burnout como uma doença e um fenômeno ocupacional. A entidade agora vai desenvolver diretrizes para diminuir a incidência de casos9.

Assim como a depressão, o burnout não é um sinal de fraqueza, mas sim um indício de que muitos dos próprios limites foram ultrapassados. Por isso, não se culpe caso você esteja apresentando sintomas desse esgotamento extremo10.



O primeiro vestígio do problema é aquela indisposição para ir trabalhar11. “Pouco a pouco, a pessoa passa a se sentir desmotivada para o trabalho, e já não sente tanto prazer em estar lá. Devagarinho, vai tendo um cansaço cada vez maior diante de atividades profissionais antes desenvolvidas com facilidade”, explica Carmita Abdo, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPQ – HCFMUSP)10.

Amarelo é bom   

O amarelo que simboliza o mês de setembro, no final das contas, é uma cor boa. Simboliza a atenção que a sociedade está empregando em um tema tão complexo e que por muitos anos se manteve escondido, no íntimo das pessoas e das famílias.

E é com esse apoio, da imprensa, artistas e sociedade em geral que a campanha de 2019 já conta com mais de 3 mil voluntários em todo o Brasil12. Segundo o Centro de Valorização da Vida (CVV), são 110 postos de atendimento e dezenas de pontos de iluminação na cor amarela para lembrar da importância dos cuidados com a saúde mental12.



O CVV disponibiliza diversos canais de atendimento para quem quer conversar e a linha direta 188 que funciona em todo o Brasil12.

O amarelo significa atenção, cuidado e, sobretudo, empatia ao próximo. É uma cor que faz as pessoas reagirem, mudarem o rumo e procurar ajuda. O amarelo salva!

Referências bibliográficas:

1. Royal Society for Public Health. Social media and young people's mental health and wellbeing.
Disponível em: https://www.rsph.org.uk/uploads/assets/uploaded/d125b27c-0b62-41c5-a2c0155a8887cd01.pdf - Acesso em 3 de setembro de 2019.

2. Portal O Globo. Instagram inicia testes para ocultar número de curtidas em publicações da rede social.
Disponível em: https://oglobo.globo.com/economia/tecnologia/instagram-inicia-testes-para-ocultar-numero-de-curtidas-em-publicacoes-da-rede-social-23813480 - Acesso em 29 de agosto de 2019.

3. Associação Brasileira de Psiquiatria. Campanha Setembro Amarelo.
Disponível em: https://oglobo.globo.com/economia/tecnologia/instagram-inicia-testes-para-ocultar-numero-de-curtidas-em-publicacoes-da-rede-social-23813480 - Acesso em 29 de agosto de 2019.

4. Agência Brasil. Setembro Amarelo terá foco em prevenção do suicídio entre os jovens.
Disponível em: http://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2019-08/Setembro-amarelo-tera-foco-em-prevencao-do-suicidio-entre-os-jovens - Acesso em 30 de agosto de 2019.

5. Johns Hopkins University - Depression on the rise among teens, especially girls, Johns Hopkins study finds -
Disponível em: https://hub.jhu.edu/2016/11/16/adolescent-depression-study/ - Acesso em 1º de setembro de 2019

6. Facebook, Emicida.
Disponível em: https://www.facebook.com/EmicidaOficial/posts/2402935996430725 - Acesso em 29 de agosto de 2019.

7. Prefeitura Municipal de São Paulo. 'Muita gente tem depressão e não sabe', alerta especialista da Saúde.
Disponível em: https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/saude/noticias/?p=279514 - Acesso em 30 de agosto de 2019.

8. Ministério da Saúde, Governo Federal. Síndrome de Burnout: o que é, quais as causas, sintomas e como tratar.
Disponível em: http://www.saude.gov.br/saude-de-a-z/saude-mental/sindrome-de-burnout - Acesso em 1º de setembro de 2019.

9. World Health Organization. Burnout um "fenômeno ocupacional": Classificação Internacional de Doenças -
Disponível em: https://www.who.int/mental_health/evidence/burn-out/en/ - Acesso em 30 de agosto de 2019.

10. Medley. Síndrome de Burnout: como lidar com esse problema no trabalho.
Disponível em: https://www.medley.com.br/podecontar/preciso-ajuda/burn-out - Acesso em 30 de agosto de 2019.

11. Mayo Clinic. Job burnout: How to spot it and take action.
Disponível em: https://www.mayoclinic.org/healthy-lifestyle/adult-health/in-depth/burnout/art-20046642 - Acesso em 2 de setembro de 2019

12. Centro de Valorização da Vida (CCVV). Setembro Amarelo: expectativa de alcance recorde.
Disponível em: https://www.cvv.org.br/blog/setembro-amarelo-alcance-recorde/ - Acesso em 1º de setembro de 2019.

SABRAGE.MDY.19.09.0336